MAIS PRECE!

Serenata

Cecília Meireles

 

Permita que eu feche os meus olhos,

pois é muito longe e tão tarde!

Pensei que era apenas demora,

e cantando pus-me a esperar-te.

 

Permite que agora emudeça:

que me conforme em ser sozinha.

Há uma doce luz no silencio,

e a dor é de origem divina.

 

Permite que eu volte o meu rosto

para um céu maior que este mundo,

e aprenda a ser dócil no sonho

como as estrelas no seu rumo.

SOBRE UMA NUCA

Eu observo de longe.
Respiro.

Eis que surge a tempestade de cheiros.
E com ela, vontade de pegar.
Tocar.
Lamber.
Morder.
Sorver.
Consumir.
E absorver.

De ter pra mim.

Paro.
Travo a respiração.
E me lembro de até onde as convenções me permitem ir.
E respiro de leve.
Mas o cheiro volta.

E com ela a vontade de pegar e tocar e lamber e morder e sorver e consumir e e absorver.

Pra mim. E só pra mim.

Pisco e me vejo, tocando de leve.
Acariciando com delicadeza.

Imagino um espelho a nossa frente, e nele os olhos fechados com o prazer de ser tocado por mim.

Abro o olho,
Respiro
E volto à rotina.

Com o cheiro, que tenho seguido esses dias,
Eu convivo.

Ou é ele a mim?

MINHA LARANJEIRA VERDE POR QUE ESTÁ TÃO PRATEADA?

Começo esse texto ouvindo a música que vai na pergunta lá embaixo...

Esses últimos dias foram da ordem do aprender com um pouco de dor.
Foram dias de decisões.
De ver o óbvio, e de descobrir-me diante disso.
Um exemplo:


Esse quadro é de Piet Mondrian.

Ao bater os olhos nele, jurei que era mentira.

Onde está a pureza da cor, onde está o básico e o resumo da forma.
Onde está o geométrico e o ritmo.
A brincadeira do sem fim negro sob o branco puro.
Mas sim é dele.
Dez anos antes de fazer seu primeiro com as 3 básicas cores.
Olhei bem e por horas e descobri seu caminho ali.

E isso me remeteu ao genial que é o início de cada coisa ou processo.
Medo e insegurança. Firmeza e profundidade.
A busca da verdade. Da sua Verdade.

Vejo a extensão dos traços ao infinito.
A atração daquilo que curva ao carregar, mas envolve e cuida por ter braço.
Vejo a intensidade do pulsar de cada traço.
Vejo o que precisa ser visto de perto e a distância necessária para entender o todo.
Vejo da forma pura, dentro que de há mais perfeito e inevitável, a imperfeição.

Me vejo diante de um Espelho.

E por que sou tão prateada?
Pois me vejo firme, com os pés no chão, mas com braços tendendo ao infinito.
Obrigada cada coisa que está doendo agora.
E sei que posso estar sozinha, mas nunca caminharei vazia.

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